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sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Poemas XIV - Prece em Silêncio



Por detrás do vidro
olhava-A.
Vi-me, de repente caído,
ajoelhado a seus pés.
Rodeado de pessoas
mas sozinho em sentimentos,
naqueles escassos momentos
olhei para cima e senti.
O que fazia eu ali?
Esqueci toda a gente
ficando só de repente e,
virando os olhos para os Céus,
senti-me temente a Deus.
Ouvi o meu pensamento
soltar um grito abafado,
uma prece silenciosa.
Será que alguém escutou
um apelo, entre milhões?
Estes pobres corações
precisam mais do que eu
ter fé naquela Senhora.
Que ela nos proteja agora
dos erros que cometemos
e a nós, os que vivemos
aos tropeços pela vida,
sem destino e fraco rumo,
com a fé desfeita em fumo,
ensinai-nos que os caminhos
não se percorrem sozinhos
e que há sempre alguém
que sente o que nós sentimos
e sofre por nós também.
Abri os olhos.
Levantei-me
e ouvi o burburinho,
ruído da multidão
que andava em silêncio
no meio do santuário.
Não sei aquilo que vi,
fora talvez um engano
uma imagem escondida
entre o meu imaginário.
Não sei se mais alguém viu.
Envolta em pura brancura
a senhora olhou para mim e,
com uma lágrima, sorriu



© H. Vicente Cândido, 25-10-2007 (Santuário de Fátima)







quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Poemas XIII - Apenas um Beijo

Olhei para ti.

Li nos teus olhos
a ternura do Amor.
Abracei o teu olhar,
ouvi o teu respirar
e senti o teu calor.

Noite de Março.
Depois de um sol sem vento
cai um frio arrepiante.
O teu abraço,
aquece toda a minha alma
e, eu recordo esse instante.

Recordação.
lembrança de um momento
que trago dentro de mim.
Essa emoção
que alimenta a minha vida,
é o meu Amor por ti.

Olhei para ti.
Cruzaste os olhos com os meus
mas não leste o meu desejo.
Não peço muito,
Quero apenas os teus lábios
para poder dar-te...

...um beijo.






© H. Vicente Cândido, 15-3-2006 (Noite de fados – Adega do João)

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Poemas XII - Fé no Amor

Ter Fé..!

Ter Fé é acreditar.
Acreditar no medo
da nossa existência.
Acreditar num mundo
com benevolência
que compreende, apoia,
tem clemência.

É acreditar.
Acreditar que uma vez o pecado
foi temido, explorado,
retirado deste Mundo
conturbado.
E eu,
aqui sentado,
vendo passar a Fé desvanecida
como quem vê passar
a própria vida,
espero.

Espero poder acreditar
que se a palavra de hoje é matar,
roubar, mentir,
prejudicar,
amanhã seja
Amar.

Acredito em Deus?
Não sei.
Mas tenho de acreditar
ter Fé para continuar
num mundo de desdenha,
ódio, dor.
Numa coisa acredito,
no Amor..!




© H. Vicente Cândido (25-11-2004)

terça-feira, 10 de julho de 2007

Poemas VIII - Desabafo..!

Clique para voltar ao início do Blog.

Ouvi!
Ouvi e falei até de mais.
Ouvi o que quis,
o que não quis
e, falei.
Magoei talvez alguém
mas, digo também:
Como se pode evitar
falar do coração?
Perdão?
Não vejo qual a razão
nem qual a necessidade
de existir uma desculpa
para quem diz a verdade.
Ouvi!
Uma e outra vez
as mesmas palavras
e frases absurdas,
ofensas sem nexo
de traição e sexo.
Magoado,
optei por ficar calado.
tentei não mais ouvir
e, também
inventei estar tudo bem.
Fingi!
Fingi que não liguei
mas, ouvi…
e chorei.






© H. Vicente Cândido, 28-12-2006 (em Peniche, sentindo a brisa do Mar)


sábado, 26 de maio de 2007

Contos - "Lasciva e Sensual"


Ao longo do Blog (que espero durar muito tempo), vou publicar também alguns contos originais, bem como outros, se possível devidamente indexados e que, pela sua natureza, mereçam ser postados aqui.
Podem também encontrar alguns dos meus textos, poemas e outras "Palavras", no site das Edições EC - Escrita Criativa, que estão desde já convidados a visitar.

Todos os meus contos são pura ficção mas... o que é a ficção senão uma história fictícia sobre a possível realidade de alguém?


      Sete horas da tarde.

      Sentado no banco de pedra sobre a falésia, observava as ondas enquanto esperava que o pôr-do-sol me trouxesse inspiração para mais um conto.
      Em pleno mês de Abril, o pouco movimento na Ilha do Baleal deixava o mar cantar a sua canção quase sem interrupções. Com o caderno de apontamentos a postos, aguardava.
      «Só mais uns minutinhos.» – Pensei.
      Foi então que uma mão tocou ao de leve no meu ombro numa carícia tão suave como uma brisa morna que quase não se sente.
      Virei-me.
      Atrás de mim uns olhos azuis e cristalinos reflectiam o amarelo avermelhado do sol que começava a pousar sobre o oceano. O meu espanto foi imediatamente ultrapassado pela beleza dos cabelos claros que esvoaçavam serenamente açoitando a face do anjo que sorria para mim.
      «Posso sentar-me?» – Disse.
      Sem conseguir falar, sinalizei-lhe que sim.
      Ela sentou-se mesmo ao meu lado deixando quase um metro de banco desocupado. Olhava-me com um misterioso sorriso, tal Mona Lisa enigmática e provocante.
      Quando, ao fim de alguns segundos de silêncio, finalmente consegui recuperar a voz e me preparava para perguntar-lhe o nome, um dedo indicador colou-se nos meus lábios e, a mesma mão que antes me tocara no ombro, afagava-me agora carinhosamente a perna esquerda.
      Um arrepio percorreu-me toda a coluna.
      Aquele dedo que me pressionava deliciosamente o lábio, aqueles olhos meigos cor do mar, aquela boca lasciva…
      Perdi a noção de tudo! Do sitio onde estava, das janelas que escondiam olhares indiscretos, do desconforto no banco de pedra. Tudo! O bloco de apontamentos voou pela falésia enquanto uma excitação que ultrapassava tudo o que tinha sentido até então se apoderava de mim.
      Tinha de possuí-la ali mesmo.
      Já não me interessava o nome, quem era, o que fazia ali… Beijei-a sofregamente e arranquei-lhe de um puxão a fina camisa de seda. Ela sorriu enquanto num só gesto, hábil e pensado, me desabotoou os as calças e me puxou pelo pescoço até eu conseguir sentir a sua respiração.
      «Vamos!» – Ouvi-a dizer num murmúrio enquanto sentia que me apertava cada vez mais o braço.
      «Vamos!» – Disse-me outra vez. Mas a dor era agora mais forte.
      Olhei para trás.
      Um braço peludo agarrava-me com força e uns olhos castanhos escondidos por baixo das sobrancelhas carregadas olhavam-me divertidos.
      «Vamos!» – Repetiu um homem com calças de pintor e uma barba negra, espessa, pingada com salpicos multicolores. – «É melhor acordar ou ainda se descuida e cai lá em baixo. Não interrompi nenhum sonho agradável, pois não?»
      Voltei à realidade e sorri.
      A canção calma das ondas tinha-me embalado ao ponto de adormecer mas, afinal a inspiração para o conto tinha chegado mais uma vez.




© Palavras (de H. Vicente Cândido)