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terça-feira, 11 de outubro de 2016

"Há tardes em que os beijos rompem as nuvens"


Os primeiros raios de luz forçam a sua entrada na janela do quarto, tremeluzindo por entre as gotículas de água nesta manhã chuvosa.

“Foi apenas um sonho.” – Penso para comigo, sentindo ainda o perfume do teu corpo, o mel nos teus lábios e… recuso-me a abrir os olhos.

Deixo-me embalar no pensamento, e recordo essa tarde que passou entre o infinito instante de um primeiro beijo.

“Não foi sonho..! É impossível os sonhos serem assim tão doces.”

Que lindo despertar este, quando constatamos que a realidade supera a imaginação dos nossos desejos mais loucos, e que os sonhos são apenas uma ténue neblina de segredos por desvendar.

A chuva cai lá fora. O tempo está triste mas, eu levanto-me com um sorriso.

Sorrio, por saber que voltarei a sonhar!


© H. Vicente Cândido, Peniche 11-10-2015
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sábado, 27 de agosto de 2016

"Olá a um Adeus!"

Alexander Sheversky - Ballet
Por vezes uma conversa, mesmo que escrita, começa com um 'adeus'.

"Não vás!", alguém me disse. "Gosto de te ver por aqui, e de te sentir perto, mesmo sabendo estares longe."
E... Eu não fui...

Como é possível que uma carícia distante e um pensamento mútuo de desejo, se fundam na impossibilidade de uma noite de amor?
Não sei! Mas, talvez impossível seja ignorar o coração e a alma. Talvez até os sonhos sejam uma realidade que apenas se encontra distante.

Adeus?
Não... Até à próxima!
Para quê despedir-mo-nos do desejo, se ele retorna ainda mais forte, apenas com uma simples palavra murmurada ao ouvido e a recordação de um olhar?

Vou contar-te pormenores de manhãs futuras, onde ainda não te acordei com um beijo...
Vou imaginar a teu semblante sereno ao adormeceres nos meus braços...
Mas... Não vou dizer 'adeus'!

Recordo agora em segredo o teu sorriso e, tentando sem conseguir, forçar o pensamento a abandonar a tua imagem, digo-te apenas, com carinho:

Até breve.!

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© Hélio V. Cândido,  
27-08-2015 Atouguia da Baleia

domingo, 31 de julho de 2016

"Em Jeito de Diário" - parte 3 de 3 (final)


Demorou tempo até deixar de colocar as prioridades de quem não merece, à frente dos meus próprios desejos mas, confesso que foi necessária muita força de vontade e uma ou duas mensagens amigas, de incentivo, concordância e apoio.

Lá está a Amizade outra vez. Que coisa bela!

Como é possível que tais palavras de conforto cheguem de quem menos convívio tinha? Afinal… são lindos os mistérios desta vida.

Olho alguns meses para trás, e percebo finalmente o que esta recém-adquirida liberdade de compromissos sentimentais me trouxe. Presenteou-me com a oportunidade de trocar umas primeiras e simples palavras que deram origens a amigos sinceros. Agora sim, posso dar largas a sentimentos mais puros, sem ter por cobertura a sombra da desconfiança iluminada por vezes pela fraca luz da anuência.

Se a vida corre bem? Claro que não! Nunca corre… há sempre algo que podemos melhorar. Mas tenho agora o vislumbre de um futuro que, embora incerto, está à espera, no final de uma estrada longa e sinuosa, mas longe dos terrenos planos e sedutores do passado, que ostentavam falsidades e ocultavam armadilhas por cada metro percorrido.

E pronto… mais uma folha de um guardanapo de papel escrita, que acabou por se transformar em duas, depois em três… e acabei por terminar o resto desta história em frente do computador.

Se terei mais para contar? Se foi realidade ou ficção? Quem sabe…

Deixo-vos com uma frase do grande “Pessoa”: "Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"

"Em Jeito de Diário" - parte 2 de 3


A caneta continua a escrever, enquanto a fútil tentativa de sentir raiva dá origem a um sorriso.

«Talvez fosse melhor assim.» – Repito para mim baixinho. Mas o coração ainda não me deu provas do que a lógica tem como certo. – «Como é possível, depois de quase uma década de amena estabilidade, a vida dar tantas voltas num espaço de tempo tão curto?»
Olho para estes últimos dois anos, com os seus altos e baixos, acarretados com problemas e alegrias. Lembro-me dos usuais convívios, cada vez mais espaçados no tempo, dos contactos com amigos, cada vez mais raros, de novos conhecimentos e amizades que a pouco e pouco foram surgindo…

Amizade… Palavra estranha, essa.

Dou por mim novamente a sorrir.

Afinal, os amigos dignos desse nome a que eu dou, talvez, mais importância que a palavra “Amor” (usada agora por tudo e por nada em qualquer reles telenovela) continuam a sê-lo. Sinto por vezes a sua tristeza nas poucas conversas que temos, pois um verdadeiro amigo também tem o direito de ficar triste quando não nos vê felizes, e mais ainda, quando se vêem quase obrigados a fazer escolhas impossíveis em prol de um ambiente mais salutar, onde os ciúmes de um, se sobrepõem à vontade de muitos.

sábado, 30 de julho de 2016

"Em Jeito de Diário" - parte 1 de 3


Aqui estou eu, novamente a rabiscar algumas palavras nas pequenas folhas amarrotadas de um guardanapo, sentado exactamente na mesma mesa de esplanada onde por tantos anos desfrutei de uma companhia que pensava ser eterna.

Olho para a cadeira vazia a meu lado, e as imagens dos tão belos momentos que passamos juntos, entre conversas e olhares de cumplicidade, passam por mim a correr como num antigo filme mudo, ainda a preto e branco. Sem dar por isso, já passou um ano… Dois anos... Três... Não consigo conter uma lágrima que teimosamente insiste em querer vir espreitar o sol deste final de tarde.

«O tempo passa a correr.» – Penso para comigo.

A ténue linha entre a felicidade e a tristeza enrola-se na minha mente em voltas complexas, tal como a mais elaborada renda de bilros, onde apenas podemos apreciar a complexidade e beleza do resultado final, mas é impensável até para o olhar mais atento e treinado, distinguir todas as suas voltas e contravoltas. 

Em vão, tento forçar-me a pensar nos momentos menos bons que passámos, e sinto-me frustrado ao constatar que apenas as boas recordações ficaram.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Pedido Impossível...


A noite findou e, a madrugada nasceu sem um sorriso.
Indaguei… Perguntei… Por dias e meses chorei…
Mas finalmente sei o porquê.
O porquê da distância ser cada vez maior…
O porquê das palavras já não aquecerem as manhãs frias de inverno…
O porquê de não ouvir no teu pensamento a palavra Amor.
E... Agora que sei… Caem lágrimas por um rosto que já não espera sentir novamente o calor do teu sorriso.
E… Agora que sei… Foi minha a culpa.
Chama-lhe ingenuidade… Credulidade… Confiar demais numa pretensa amizade…
Chama-lhe o que quiseres… Não estás longe da verdade!

A tarde terminou e, as trevas avizinham-se longas e melancólicas.
Contenho em mim explicações que não pedes sobre um assunto encerrado e, enterrado sob as questões que nunca quiseste colocar.
Retraio muito a custo a vontade de te enviar mil beijos no vento, cada um deles levando um pedido impossível banhado numa lágrima:
Desculpa, eu te peço!
Mas… Eu sei. Eu sei que até as palavras mais frias e distantes ofertadas… Nem essas eu mereço!

Começa o dia e, o sol agracia-me com a recordação do teu olhar.
Sinto-me feliz com a singela retribuição de um carinho mas, guardo para mim essa realidade quase certeira de momentos únicos que dificilmente se repetirão.
Eu sei… Eu sei que, por mais que pese no coração, por mais que tente... Há erros indeléveis impossíveis de apagar mas, prefiro mil vezes fechar os olhos para sempre do que, por um ínfimo segundo apenas, falhar contigo… Novamente!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

"Reencontro"

arte por, Leonid Afremov

Cheguei, finalmente.
Os teus olhos recebem-me com o brilho característico da alegria e da saudade. A ânsia de um beijo proibido é parcamente atenuada por um cumprimento mais formal:
“Olá. Como estás?”
As nossas mãos tocam-se num gesto involuntário e a vontade de te arrastar pelo braço daquele local público e te guiar até à privacidade do quarto, acende-se em mim como um farol.
«Será que alguém percebeu?» – Penso para comigo.
Tento disfarçar, mas quando o meu olhar se cruza com o teu naquele instante que parece durar uma eternidade, não consigo conter um sorriso e sinto a inevitável cor rubra formar-se no rosto.

Estavas a pensar o mesmo… Não chegaríamos ao quarto!

O silêncio momentâneo e fictício, volta a dar lugar ao burburinho característico do café. Dirijo-me ao balcão depois de cumprimentar distraidamente os outros ocupantes da mesa, mas não resisto a passar a ponta dos dedos pelos teus cabelos numa caricia dissimulada.
A espera antes de ser atendido, contribui com o tempo necessário para controlar os pensamentos, mas o desejo… Esse aumenta a cada passo que dou na tua direcção.

A noite continua, entre conversas alegres, banais, e assuntos mais tristes. Opiniões são dadas… Comentários feitos… Os minutos transformam-se rapidamente em horas e, entretanto, está na hora de ir.

Não foi hoje, nem será amanhã. Talvez para a semana... ou talvez até nunca venha-mos a ter o prazer de saciar o fogo dessa paixão quase impossível, ateado nas labaredas de um primeiro olhar.
Mas… Eu nunca gostei da palavra “nunca”.

Levantamo-nos, e começa a sucessão de cumprimentos, agradecimentos e votos de boa viagem.
Tu ficas para o fim.
As palavras de despedida fluem num abraço informal mas, quando as nossas faces se tocam, é impossível resistir a trocar a suave caricia de um beijo.
“Um dia…” – dizes-me baixinho ao ouvido.
“Sim…” – respondo. – “Pena esse dia não ser já hoje.” 

 Os nossos braços separam-se, renitentes e, enquanto me afasto e deixo em voz alta um último “Boas noites”, adivinho o teu pensamento a proferir baixinho:
«Quero fazer amor contigo!»
Olho para trás…
«Eu também.»

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H. Vicente Cândido, 1 de Julho de 2015

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Apenas mais uma tarde...

Sob o calor do sol, o teu corpo desnudo descansa a meu lado, de olhos fechados e, os dois ou três salpicos de areia que te abrilhantam a face, tornam ainda mais doce e sedutor o teu sorriso.
Adormeceste com o burburinho das ondas, numa maré que subia calma e lentamente.
Enquanto lia baixinho as páginas de um livro que nos leva a acreditar ser possível, até na mais simples história de vida, todos termos a capacidade de voar rumo a um destino ainda não traçado, pensei ser talvez o som da minha voz que te embalava na serenidade dos sonhos.
Foi mais forte do que eu, resistir a fazer-te uma carícia.
Acordaste… Não em sobressalto mas, murmurando as palavras mais doces que tinha escutado até então:
"Olá Amor! Já adormeci, não foi? "
Não respondi. Limitei-me a interiorizar todo o sentimento que um pequeno conjunto de letras pode ter, quando genuínas e ditas com sinceridade.

Passaram algumas horas…
O vento obrigou-nos a sair daquele lugar e, não tardaria muito, irias partir.
Parámos num local mais recatado, na exacta altura em que o sol desaparecia entre rochas nuas de tons acastanhados e o azul acinzentado do mar.
Uma vez mais, a conversa séria sobre os problemas da vida deu lugar ao silêncio.
Palavras para quê, quando as cores plácidas do final do dia contam sem usar a voz uma mesma história de vida que uniu na paixão dois corações?

Ficamos assim… por minutos intermináveis sentindo o calor do nosso desejo esquecer a vida e o mundo, unindo-se na ternura de um beijo.
 
"Sunset Kiss" por, Gordon King
Despedida.
É sempre difícil a despedida.
Deixamos para trás o pôr-do-sol e, pouco depois as nossas mãos tocavam-se num último adeus. Seria apenas por um dia mas, até o mais efémero segundo sem te saber perto de mim, parecia uma eternidade.
Não resisti a fazer-te sorrir uma vez mais antes de partires:
“Esta noite vou procurar por ti nos sonhos e… amanhã espero por ti com um beijo!”
Já não escutaste as últimas palavras que disse baixinho, não retraindo uma pequena lágrima:
“Boa viagem… meu Amor!”

quinta-feira, 2 de junho de 2016

“São Rosas, meu Senhor”

            

            Ainda com os olhos semicerrados, senti os teus passos leves aproximarem-se.
            A estranha ausência de vento no amanhecer do dia, permitia ouvir ao longe o murmurar das ondas, e a sua suave canção de embalar impelia-me a ficar mais uns minutos no conforto da cama.
            «Bom dia Amor!» – Ouvi, ao mesmo tempo que sentia o calor dos teus lábios na minha face.
            Despertei com o teu rosto sorridente, divertido e meigo, olhando para mim.
            Nos teus braços, um tabuleiro ornado com uma toalha de linho, bordada com motivos florais, e sobre ele um pequeno cesto, também coberto com um guardanapo de pano.
            Recordei a primeira vez em que, depois de uma noite de amor onde adormecemos nos braços um do outro, tomamos o pequeno-almoço na cama e, não conseguir conter um sorriso.
            «Olá!» – Disse eu, ainda ensonado. «O que trazes aí?»
            «São rosas, meu senhor…» – Respondeste, fazendo uma ligeira vénia. 

            A história misturou-se por instantes no meu pensamento, trocando o D. Dinis e a rainha Isabel, pelo romance entre D. Pedro I e a aia de D. Constança.
            «Ai sim, Inês… Posso então ver o que levas no regaço?»
            Arrependi-me no mesmo instante dos dois erros acabados de cometer. O primeiro, histórico, e o segundo muito mais grave, trocar o nome de quem me tinha ido despertar com tanto carinho.
            Antes de podermos dizer mais alguma palavra que tornasse aquele início de dia desagradável, saltei da cama e coloquei os meus braços em torno da tua cintura. Com o susto, desequilibrámo-nos, caindo os dois sobre os lençóis e, perante o meu espanto, do cesto sai uma linda e perfumada rosa vermelha. 

            «Desculpa, amor!» – Disse-te, pegando na flor e passando-a levemente sobre o teu rosto, percorrendo depois os teus lábios e continuando essa suave caricia até ao limite do peito desnudo.
            O nosso olhar cruzou-se num desejo primordial, onde a razão desapareceu dando lugar aos instintos mais básicos da criação. O toque sôfrego dos nossos lábios, depressa se transformou em mais meia hora de paixão, terminando os dois lado a lado, olhando nos olhos um do outro, ainda com a respiração ofegante.
            «Não estava previsto!» – Dissemos em uníssimo, não evitando uma sonora gargalhada.
            Depois de um rápido “duche” a dois, ainda com a toalha enrolada na cintura, perguntei:
            «Então e, o pequeno-almoço?»
            Não tive tempo de me desviar de uma “palmada”, supostamente carinhosa mas que me deixou a nádega esquerda dorida.
           «Eu já fiz o milagre das rosas…» – Respondes-te. «Agora vai tu fazer as torradas!» 

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© H. Vicente Cândido, 02-06-2015 
(arte: "Simple Graces", por Richard S Johnson)

sábado, 21 de maio de 2016

No Ritmo Insano do Amor e Desejo

Os escassos centímetros que nos separam, apenas aumentam a vontade de te sentir ainda mais perto.
Tento abster-me da tua presença. Escutar o vento, que teima em açoitar as janelas neste final de tarde onde o sol ainda se sente tímido para brilhar com todo o seu esplendor. Tento focar-me no ecrã em minha frente que emite uma luz pálida, transformando-se numa difusa neblina à medida que sinto cada vez mais próximo o calor do teu corpo. Tento concentrar-me no trabalho que já há muito deveria estar concluído e, forço-me a não olhar para ti, mas… O teu rosto toca-me ao de leve na tentativa de amenizar o reflexo do vidro, espreitando por cima do meu ombro com um olhar cativante e sedutor.

Pronto… Desisto… Não aguento mais!
Esqueço o vento, o trabalho, o local onde estou e, não resisto a procurar os teus lábios num apetite incontrolável, sentindo nesse mesmo instante a retribuição escaldante que, contra todas as previsões e convenções, nos impele para lá da loucura, iniciando um fogo passível de ser extinto apenas pelo culminar de uma explosão de prazer.


Entre o momento de um beijo e caricias suaves por vezes descontroladas, os nossos corpos já desnudos entregam-se ao desejo numa paixão ardente, ignorando o mundo e deixando o suor escorrer livre e ofegante por todos os poros.
Palavras de amor erguem-se baixinho, alternando entre outros sons, mais característicos do momento e quase impossíveis de serem abafados… Mais alto… Cada vez mais alto… Num compasso sincronizado que cresce exponencialmente até atingir um ritmo frenético e… Deixamo-nos cair exaustos sobre as roupas que tinham misteriosamente ocupado todo o espaço do pequeno escritório.

Ficámos ali, olhando-nos nos olhos, juntinhos a sorrir sabe-se lá por quanto tempo até que, de soslaio, reparo na mensagem que piscava no ecrã do computador. Levanto-me de um salto e, incrédulo, não podia acreditar no que lia antes do sistema se desligar sozinho.
Um sinal de perigo com fundo amarelo sinalizava o aviso em destaque sobre um fundo baço:

“ERRO! IMPOSSÍVEL GUARDAR DOCUMENTO. 
       O WINDOWS VAI ENCERRAR EM… 4… 3… 2… 1…”

 Uma mão delicada acaricia-me a face levemente e com ternura.
“ – O que aconteceu?” – Perguntou.
Sinto-me sorrir com a resposta, antes mesmo de articular qualquer palavra:
“ – Sabes amor… Acho que vamos ter de repetir tudo novamente.”