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segunda-feira, 16 de julho de 2007

Poemas IX - Uma Mosca

E para deixar por alguns instantes os assuntos mais sérios de lado, vamos fazer
justiça a um dos mais usuais hospedes das nossas casas, as Moscas.

Espantada aqui e além
vai a mosca impertinente.
Zune e voa pela casa,
atormenta toda a gente.

Mata-moscas se agitam
numa tentativa vã
de apanhar a mosquinha
que volta sempre amanhã.

Com o rabo reluzente
vem a mosca varejeira
pousa leve e delicada
num monte de caganeira.

Não repara enquanto come
que alguém horrorizada
olha para a porcaria
e, é outra vez espantada.

Coitada da pobre mosca
que não estorva ninguém,
qualquer bosta a contenta
mas nem na merda está bem.

Entra em casa novamente
procurando mais comida,
a medo, pousa na mesa
com a toalha estendida.


Aquelas simples migalhas
olha-as com sofreguidão
e encontra nesses restos
a almejada refeição.

Já depois de bem tratada
não repara, com certeza
numa mão forte e pesada
que a espalma na mesa.

Coitada da varejeira
que por comer em má hora
nunca mais se levantou,
morreu com as tripas de fora.










© H. Vicente Cândido (15-01-2007 – Serra d’el Rei)


quarta-feira, 27 de junho de 2007

Poemas VII - Velha Traineira

E aqui vai mais um poema em jeito de canção, dedicado a todos os pescadores desta linda terra que é Peniche.

Quem sabe se um dia não aparece por aqui alguém com uma idéia para a musicar e um outro alguém com voz para a cantar.

Brincadeiras à parte, espero que gostem.




Velha Traineira



Velha traineira
vai rumando, altaneira
desflorando a bandeira
de um povo junto ao mar.
Velha barcaça,
que já perdeu sua graça
mas que a forte carcaça
ainda deixa navegar.


Barco velhinho
vai seguindo o seu caminho
mar a dentro direitinho
correndo sem se cansar.
Leva consigo
velhos lobos da maré
com sabedoria e fé
deitam as redes ao mar.


Linda traineira,
volta de sua viagem
devagar, ruma p’rá margem
pois o porto a espera.
Mais uma vez
forçando seu coração
trás toda a tripulação
são e salva para terra.


Mas desta vez,
não parou no seu destino
e ao longe ouviu-se um sino
que o som, o vento levou.
Anunciando
que p’rá doca era levada
ali ficou ancorada
a viagem terminou.


Aguarda agora
maldizendo a sua sorte
depois de enfrentar a morte
tanta vez em alto mar.
Mesmo a seu lado
está mais um barco encalhado,
partido, despedaçado
nunca mais vai navegar.

Agora sabe
um pouco mais conformada
está sua vida acabada
nada mais pode fazer.
Fecha os olhos
ao som de fortes pancadas
serrotes e marteladas
pode enfim em paz morrer.





© H. Vicente Cândido, 28-09-2006 (restaurante "O Beirão")


quarta-feira, 6 de junho de 2007

Poemas V - Vinte Anos

Palavras..! Porque escrevê-las se não forem sentidas?

Mais umas vez, as linhas que se seguem só fazem sentido para quem ver nelas algum significado e, embora a poesia seja quase sempre um veículo para expor os sentimentos do próprio poeta, por vezes há necessidade de escrever em versos algo que não corresponde à nossa própria vida, mas à de alguém que, ao ler estas poucas linhas pense para consigo:

"Este fulano escreveu isto a pensar em mim."

Se for o seu caso, espero que aprecie o poema abaixo.





Vinte anos se passaram
e o meu coração
só a ti pertenceu.
Palavras trocamos,
carinho, paixão.
O que aconteceu?
Será que alguma vez
gostaste de mim?
Começo a duvidar.
Serão ausências e voltas,
carinho e desdém,
o que chamas amar?

Penso em ti.
Acordo desolado
a recordar o passado
que não vai voltar.
Por ti, da vida prescindo
e, esqueço que foste mentindo
pois queria acreditar
que as carícias e paixão
vinham do teu coração
e não por simples interesse.
Mas, talvez eu merecesse
por te amar tanto assim.

Convenceste-me a mim
que eu também era amado.
Foi meu erro, meu pecado
não querer ver a verdade
quando tu chegavas tarde
ou nem sequer aparecias.
Por dias, meses, fugias
deixando-me no desespero
ia-te buscar, a medo
e as tuas palavras meigas
iludiam o meu corpo,
brincavam com os meus sentidos
e tu ali, por desporto.

Tantas vezes.

Tantas vezes
que no fim, já nem um beijo.
Ficava eu com o desejo
e um nojo infernal
que me mandava afastar
mas sem nunca querer-te mal.
E tu, cada vez mais
perdias aquele lume.
Para ti, eu era estrume.
Olhavas-me com repulsa
pior que um simples cão
mas, por mais que eu não quisesse,
tinhas sempre o meu perdão.

Afastaste-te de mim.
Foste para outro qualquer
e, sem um adeus sequer
saíste da minha vida.
A minha alma, tão ferida
que é a minha companhia
ainda espera que um dia
numa esperança muito vã,
talvez seja amanhã
que Deus guie os teus passos
e tu, de coração aberto
retornes para os meus braços.





© H. Vicente Cândido, 21-12-2006 (Este poema foi escrito especialmente para... ti.)



quinta-feira, 31 de maio de 2007

Poemas III - Jornal Diário

De perna traçada,
distraído,
lias um jornal
indiferente ao movimento,
ao barulho.
Passavas com os olhos
os cabeçalhos de uma noticia
mais quente.
Puro entulho!
Lixo que se escreve
em páginas impressas,
sensacionalistas, porcas,
perversas.
Mas vendem!
O povo quer ler
sobre as desgraças do mundo
para as suas esquecer.
Ler notícias de campeões
adorados por multidões,
das “tias” , dos milionários
e dos ricos empresários,
da vida que queriam ter.
Lêem a desgraça alheia
com sofreguidão, fervor,
devorando calamidades
para esquecer as verdades
duma monotonia lerda.
Pensam consigo e não dizem:
– Minha vida é uma merda!
Mas há quem esteja pior.





© H. Vicente Cândido, 29-09-2006 (Associação da Atalaia – Lourinhã)